Texto
dedicado aos queridos do grupo ‘Mala Vermelha’, no facebook (o símbolo é uma maçã)
Eu a vejo com menos frequência do que
deveria: cabelos ao vento, bonitos, corpo com curvas que ela não mostra muito
através das roupas, mas que vejo ao acaso sem que ela saiba. Ela atiça minha
curiosidade de saber mais sobre sua vida. “Tão perto, mas tão distante”, penso
alto mas ninguém me entende.
Ela sai de casa todo dia às sete, acho
que vai pra faculdade, aquele “quê” de superior, mas não muito, que os
quase-calouros do 3º período da faculdade têm. Mas ela tem cara de menos idade
que isso, aparenta ter uns 17 anos, no máximo, mas ainda assim tem um corpão de
mulher, que só vejo quando ela vai tomar banho no quintal. Não tenho culpa de
ela ter esses gostos estranhos, e me aproveito, por que ela deve gostar disso,
ela me deixa uma brecha, por nunca olhar se a pequena janela, bem em cima na
minha casa, está fechada, ou não. Se a escada está posta de frente pra ela, ou
se foi aposentada.
Ela traz todo o aparato para a limpeza,
que me parece magia pura: shampoo, cremes, esponja, sabonete... Me deixa
maluco, esfregando o cabelo, mão na nuca, cotovelos elevados, passa o nariz no
antebraço. Faz pose. Desliza a mão sobre os seios, passa a esponja sobre a
barriga lisinha, e então desce pro quadril. E que quadril!
Passa a mão sobre as pernas, entre os
dedos do pés, ensaboa mais a coxa, deixa limpos mais órgãos íntimos que não se
deve dizer, se joga água da cabeça aos pés e, me sinto em desespero, olha pra
cima, mas, ainda bem, é só um agradecimento aos céus pela água que lhe forneceu.
Eu me escondo, tento não me mover bruscamente, e ela resolve, então, pentear os
cabelos. Separa as mechas, passa a escova de plástico nos cabelos que eu desejo
tocar, nesse exato momento. Joga os cabelos pra trás, e perco a noção de tudo,
balança eles com as mãos, me sinto desarmado.
Enxuga os cabelos, as costas, passa a
toalha sobre as pernas, ela nem se dá conta do quanto isso é sexy. Calça a
sandália, enxuga os cabelos, passa a mão neles mais uma vez, me sinto maluco. E
então, pra minha tristeza, ela pega a toalha e põe de volta em torno do corpo.
Vai entrar em casa. Num súbito instinto, me recolho pra dentro do quartinho de
bagunça, sinto um olhar vindo da direção de sua casa, daquele quintal de
momentos mágicos como aquele que acabei de visualizar. Ouço ela batendo os pés
para entrar em casa. Então olho pra fora, e desço com uma rapidez extrema,
aquela escada de madeira, que nem merece minha atenção: ela não é mais perigosa
de descer do que aquele corpo todo, que me fascina pelo menos uma vez a cada
quinze dias.
Hoje eu a vi novamente saindo de casa,
na porta, não tive coragem de olhar pro rosto dela, então ouvi um “bom dia”,
uma voz nasalada, mas ao mesmo tempo elegante, ligeiramente traiçoeira. Olhei
de volta tentando me certificar de que realmente a gentileza era pra mim, ela
sorria, como se soubesse do que eu fazia nos quintais alheios. Ri de volta,
abobalhado, soltei um “bom dia” rouco, fraco e deselegante, enquanto ela fazia
o percurso de todo dia, até a parada de ônibus, enquanto eu pensava o quanto
era burro por não ter me aproximado mais e lhe oferecido uma carona até a
parada, mesmo eu estando a pé.
Um dia quem sabe eu não toque a
campainha da casa dela, ela atenda a porta com esse mesmo sorriso e não me
ofereça pra entrar. Então me ofereceria um pedaço daquele bolo cheiroso que ela
faz todo sábado, de chocolate, e talvez, quem sabe, algum dia, eu não consiga
ver aquela cena de banho mais de perto, de um ângulo que eu não precise me ocultar.