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terça-feira, 26 de março de 2013

Show de vizinha

Lucky Man by The Verve on Grooveshark



Texto dedicado aos queridos do grupo ‘Mala Vermelha’, no facebook (o símbolo é uma maçã)
  
Eu a vejo com menos frequência do que deveria: cabelos ao vento, bonitos, corpo com curvas que ela não mostra muito através das roupas, mas que vejo ao acaso sem que ela saiba. Ela atiça minha curiosidade de saber mais sobre sua vida. “Tão perto, mas tão distante”, penso alto mas ninguém me entende.

Ela sai de casa todo dia às sete, acho que vai pra faculdade, aquele “quê” de superior, mas não muito, que os quase-calouros do 3º período da faculdade têm. Mas ela tem cara de menos idade que isso, aparenta ter uns 17 anos, no máximo, mas ainda assim tem um corpão de mulher, que só vejo quando ela vai tomar banho no quintal. Não tenho culpa de ela ter esses gostos estranhos, e me aproveito, por que ela deve gostar disso, ela me deixa uma brecha, por nunca olhar se a pequena janela, bem em cima na minha casa, está fechada, ou não. Se a escada está posta de frente pra ela, ou se foi aposentada.
Ela traz todo o aparato para a limpeza, que me parece magia pura: shampoo, cremes, esponja, sabonete... Me deixa maluco, esfregando o cabelo, mão na nuca, cotovelos elevados, passa o nariz no antebraço. Faz pose. Desliza a mão sobre os seios, passa a esponja sobre a barriga lisinha, e então desce pro quadril. E que quadril!
Passa a mão sobre as pernas, entre os dedos do pés, ensaboa mais a coxa, deixa limpos mais órgãos íntimos que não se deve dizer, se joga água da cabeça aos pés e, me sinto em desespero, olha pra cima, mas, ainda bem, é só um agradecimento aos céus pela água que lhe forneceu. Eu me escondo, tento não me mover bruscamente, e ela resolve, então, pentear os cabelos. Separa as mechas, passa a escova de plástico nos cabelos que eu desejo tocar, nesse exato momento. Joga os cabelos pra trás, e perco a noção de tudo, balança eles com as mãos, me sinto desarmado.
Enxuga os cabelos, as costas, passa a toalha sobre as pernas, ela nem se dá conta do quanto isso é sexy. Calça a sandália, enxuga os cabelos, passa a mão neles mais uma vez, me sinto maluco. E então, pra minha tristeza, ela pega a toalha e põe de volta em torno do corpo. Vai entrar em casa. Num súbito instinto, me recolho pra dentro do quartinho de bagunça, sinto um olhar vindo da direção de sua casa, daquele quintal de momentos mágicos como aquele que acabei de visualizar. Ouço ela batendo os pés para entrar em casa. Então olho pra fora, e desço com uma rapidez extrema, aquela escada de madeira, que nem merece minha atenção: ela não é mais perigosa de descer do que aquele corpo todo, que me fascina pelo menos uma vez a cada quinze dias.
Hoje eu a vi novamente saindo de casa, na porta, não tive coragem de olhar pro rosto dela, então ouvi um “bom dia”, uma voz nasalada, mas ao mesmo tempo elegante, ligeiramente traiçoeira. Olhei de volta tentando me certificar de que realmente a gentileza era pra mim, ela sorria, como se soubesse do que eu fazia nos quintais alheios. Ri de volta, abobalhado, soltei um “bom dia” rouco, fraco e deselegante, enquanto ela fazia o percurso de todo dia, até a parada de ônibus, enquanto eu pensava o quanto era burro por não ter me aproximado mais e lhe oferecido uma carona até a parada, mesmo eu estando a pé.
Um dia quem sabe eu não toque a campainha da casa dela, ela atenda a porta com esse mesmo sorriso e não me ofereça pra entrar. Então me ofereceria um pedaço daquele bolo cheiroso que ela faz todo sábado, de chocolate, e talvez, quem sabe, algum dia, eu não consiga ver aquela cena de banho mais de perto, de um ângulo que eu não precise me ocultar.